Modelo de administração do Porto de Busan é semelhante ao que acontece no Brasil: o cais público pode ser arrendado para empresas (Rodrigo Nardelli/TV Tribuna) No terceiro dia de agenda técnica, a Missão Internacional Porto & Mar Brasil - Coreia do Sul 2024 cruzou o país asiático: de Norte a Sul e de Oeste a Leste, ou seja, em diagonal. A cidade de Busan fica na direção de Seul, a mais de 300 quilômetros de distância. Tem um porto dividido em três partes: Norte, Gamcheon e New Port, que realmente é novo e está em fase de expansão. A parte Norte é a mais antiga, fica dentro de uma baía, assim como Gamcheon. E o New Port, que está em fase de expansão, fica mais ao Sul. O modelo de administração do porto é muito parecido com o brasileiro. O cais é público, mas pode ser arrendado por um período. O tempo depende de cada contrato. Uma empresa pode arrendar uma parte por uma década, outra empresa pode assinar um compromisso de arrendamento por 20 anos, e assim por diante. O grupo brasileiro foi recebido pelo vice-presidente de Gestão do Porto de Busan, Jin Gyoo-ho. Ele disse que os coreanos não se preocupam só com o dinheiro que vão receber, mas também com os valores que serão gerados. “Aqui, eles não olham só o melhor preço que vai ser pago pela área. Mas, também (querem saber), se aquela empresa vai atrair mais carga, vai atrair inovação. Vamos ver como levar isso para a realidade no Brasil”, disse o diretor-geral da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), Eduardo Nery. O advogado Thiago Miller, da advocacia Rui de Mello Miller, cita que o preço representa somente 10% da proposta em Busan, trazendo uma liberdade muito maior. “É olhar muito mais o interesse do porto e da região, do que tão somente receber um valor por aquela área”, afirma Miller. O governo sul-coreano investe e insiste na inovação porque foi assim que o país se desenvolveu. A principal característica do Porto de Busan é ser um hub port (concentrador de cargas e linhas de navegação). As cargas chegam, são descarregadas no terminal e, depois, vão embora em navios menores. O Porto de Busan faz conexão com 150 países. “Cinquenta por cento da carga é de transbordo, ou seja, ela não entra na Coreia. É uma carga que chega ao porto e já sai dali para essa quantidade de países. Vimos que eles têm quase 200 linhas que saem do Porto de Busan e chegam em outros complexos portuários do mundo inteiro. Isso só é possível com muita tecnologia e desenvolvimento”, observa o desembargador do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo (TRT–SP), Celso Ricardo Peel Furtado de Oliveira. Delegação Porto & Mar recebeu informações sobre a movimentação de contêineres no porto sul-coreano (Rodrigo Nardelli/TV Tribuna) A última atualização mostra que foram 22 milhões de TEU (unidade de medida para um contêiner padrão) em um ano, 2022. “Em que pese esse volume enorme de contêineres, nós não vimos caminhões. É óbvio que grande parte dessa carga, como já vai direto para as zonas industriais, é processada e acaba saindo em caminhões de menor porte”, observou Miller. Novo e antigo Thiago Miller também destacou o planejamento a longo prazo que a autoridade portuária local realiza para manter a empresa atualizada. “Eles estão encerrando as atividades do porto mais antigo e já construíram um novo porto, com uma capacidade maior”. O advogado também se referiu às áreas industriais que são coladas ao porto e ajudam na logística. “Dali, a carga importada já é processada e enviada para as indústrias. E, para exportação, cada mercadoria chega e tem até uma espécie de zona especial fiscal. Foi outro tema que me chamou bastante a atenção”, completa. Enquanto a parte nova do porto não fica pronta, já está em andamento o projeto para devolver ao município, uma parte da área mais antiga. “Eles estão migrando e expandindo suas operações para uma área que impacta menos a cidade, enquanto que essa antiga poderá ser novamente utilizada pela população como forma de entretenimento. Ou seja, também mais uma atitude de maturidade, uma experiência interessante que trazemos de como você também pode melhor incrementar a relação porto-cidade”, argumenta Eduardo Nery. As medidas tomadas em Busan fizeram com que o presidente da Associação Comercial de Santos (ACS), Mauro Sammarco, lembrasse imediatamente de Santos. “Trata-se de um pouco do que está acontecendo agora com o Parque Valongo”, diz. Na agenda desta quinta-feira (20), os integrantes da comitiva Porto & Mar irão visitar dois terminais que fazem parte do Porto de Busan. As cargas chegam, são descarregadas no terminal e vão embora em navios menores para 150 países (Rodrigo Nardelli/TV Tribuna) Automação resulta em mudanças no mercado de trabalho A relação entre o capital e o trabalho, aliada à tecnologia, converge em um panorama muito bem resolvido no Porto de Busan. O presidente da Associação Comercial de Santos (ACS), Mauro Sammarco, observou que a expansão vem junto com a inovação. “Agora, o porto precisa se adaptar. É um caminho sem volta. A gente vê que aconteceu isso na indústria automobilística. O processo faz com que as pessoas tenham uma capacitação melhor e salários melhores. Temos aí um aproveitamento da tecnologia para melhorar a relação capital-trabalho”, afirma. Tecnologia x conflitos O desembargador do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo, Celso Ricardo Peel Furtado de Oliveira, lembrou que o Direito do Trabalho surgiu justamente do conflito com a tecnologia, quando tiraram o trabalho manual e passaram-no para as máquinas. “Agora, com a tecnologia, aquele trabalho mais pesado, com carga física, que comprometia até a saúde do trabalhador, acaba. E se torna um trabalho de comandar as máquinas que estão na operação, em escritórios, tendo uma atividade muito mais tranquila”, exemplifica o desembargador. No caso da atividade portuária, Oliveira lembra que a tecnologia é movimentando a carga remotamente, especialmente em terminais de contêineres, “onde é possível toda a operação já ser feita de forma automatizada, por intermédio da tecnologia”, completa.