[[legacy_image_331313]] Na madrugada, o estranho sujeito resolve clicar o interruptor na parede, ora para um lado, ora para o outro, acendendo e apagando a lâmpada, e observa o que ele tem a dizer. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Interruptor para a direita, eis na parede o quadro pintado por minha mãe – hortênsias rosas e azuis, sobre uma bancada com alguns pires e xícaras dispostas numa ordem sempre aquela. O quadro sobreviveu à dona Celina, dizem que é assim mesmo, mas é estranho. Um vaso de flores sobre a mesa. Estavam murchas, mas, quando entenderam que as luzes iam se acender, fizeram um esforço para um viço derradeiro. Interruptor para a esquerda, um escuro desafiador aos olhos, que se esforçam, se espremem para passar informações confiáveis. Acendo a luz, parede branca. Apago, tudo menos branca. Acendo, tudo está como estava anteriormente, não entendo esse medo, o conformismo das coisas, se resolverem trocar de lugar não lhes farei mal algum. Apago, surgem alguns fantasmas sentados à mesa, muito elegantes, cabelos engomados, relógios nos pulsos sincronizados (nunca entendi por que), tomando chá e comendo um bolo de fubá também fantasmas, e todos me olham assustados por terem sido surpreendidos. Aciono um lado, duas moscas levantam voo, chamadas à vida. Esfregam as patinhas nojentas de assanhamento. Aciono o outro, elas aterrissam (você sabia que mosca não voa no escuro, não sabia?) em algum lugar da sala que – óbvio – não posso ver. Clico para cá, não há mistério, preto é preto, palha é palha, tudo é como é, incluindo os batentes e maçanetas. Aconteceu atrás do interruptor uma faísca. Entendo: é revelação demais, quem não soltaria faísca? Insisto. Tic, tac, on, off, sim, não. Apago a lâmpada, as luzes que chegam de fora pela janela pintam as paredes de outras cores. Mas logo o escuro predomina. Vence numas, repare: as luzes abatidas fazem mais sombras. Me demoro cinco segundos com a luz acesa e dez apagada, depois doze, quinze. Quanto mais aumento o tempo do escuro, mais narrativas querem se contar. Sono leve têm as coisas adormecidas. Paro por alguns segundos: a conta de luz vai me caguetar? Algum vizinho vai interpretar isso como um pedido de socorro? Enfim: a vida inteira me disseram que não se deve acionar e desligar o interruptor seguidamente. Além de torrar a paciência dos adultos, faz queimar a lâmpada. Ah, é assim? Clico, desclico, clico, volto, acendo, apago. Não queimou. Viu? Por que inventam essas mentiras, insistem nos imperativos, cortam nossos baratos? É com medo de que descubramos os mistérios?