A relação de Lula com o atual presidente do BC. Roberto Campos Neto, nunca foi serena ou de cordialidade ( Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil ) Após sete quedas consecutivas, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central manteve ontem a taxa básica de juros em 10,5% ao ano. Para além dessa decisão, o que dominou os dias que antecederam a reunião foi o aumento de temperatura no discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva contra o atual presidente do BC, Roberto Campos Neto. Na véspera da reunião do comitê, Lula retomou sua artilharia contra o executivo do banco, dizendo que “tem lado político e trabalha para prejudicar o País”. Mais que isso, disse que o Brasil tem “uma coisa desajustada neste instante, que é o comportamento do Banco Central. Um presidente do BC que não demonstra nenhuma capacidade de autonomia, que tem lado político e que, na minha opinião, trabalha muito mais para prejudicar o País do que ajudar, porque não tem explicação a taxa de juros do jeito que está”. A relação de Lula com o atual presidente do BC nunca foi serena ou de cordialidade. Desde o início de seu terceiro mandado, em 2023, Lula critica Campos Neto por retardar a queda da taxa Selic mesmo quando, segundo seu governo, o Brasil começava a entrar nos eixos e controlar a inflação. Roberto Campos Neto foi indicado para presidir o Banco Central pelo então presidente Jair Bolsonaro em 2019 e tem mandato até o final deste ano.</CW> Independentemente de como o Banco Central avalia a economia do País para manter ou baixar a taxa Selic, as posturas de seu presidente em nada contribuem para afastar a ligação próxima que os aliados do atual governo alegam que tem com o ex-presidente. Se Lula erra ao extrapolar o bom senso e criticar Campos Neto às vésperas de nova reunião do Copom, Campos Neto também erra em suas escolhas: em 2022, foi votar vestindo uma camisa da seleção brasileira, em clara manifestação pró-Bolsonaro. Além disso, aceitou jantar que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, fez em sua homenagem há duas semanas. Faltando pouco mais de seis meses para terminar sua gestão à frente do BC, o executivo poderia se manter distante das acusações que lhe são feitas se optasse pela discrição e neutralidade de posturas, ainda mais em um momento delicado da economia do País. Lula fará a indicação do novo presidente do BC no final do ano, e já sinalizou que escolherá uma pessoa “madura”. Ao fim e ao cabo, a relação entre governo e Banco Central acaba se tornando vulnerável face à forma como é escolhido seu presidente, o que faz voltar o debate que tramita no Senado sobre PEC que institui autonomia orçamentária, financeira, técnica, administrativa e operacional do banco. O órgão deixaria de ser uma autarquia subordinada ao Governo Federal e passaria a ser uma instituição de natureza especial. Para onde quer que caminhe essa PEC, fato é que a troca de farpas e a falta de postura pública não contribuem em nada para o que mais importa: o controle da inflação e a manutenção dos preços em níveis comportados.