[[legacy_image_359167]] O mundo nada maravilhoso das senhas me põe maluca. Falta espaço para salvar todas elas na minha cabeça. O pior: sabe aquela ferramenta superútil do celular que armazena todas elas? Pois eu esqueci a senha para acessá-la. Daí, me vejo obrigada a vasculhar todos os possíveis locais em que posso ter anotado os códigos antigos de cadastro nas mais diversas plataformas, desde sites, streamings até o portal do governo. Porque, vira e mexe, elas perdem o comando e você tem que por tudo de novo. E as senhas têm que ser cada vez mais elaboradas. Nada de datas de aniversário de casamento ou do nascimento dos filhos, sobrinhos... Está pensando que é fácil assim? Tem que possuir uma letra maiúscula, outra minúscula, um símbolo, um número... E depois de você engenhosamente pensar em algo bem único, o robozinho ainda te informa que não pode repetir nada, muito menos ser em sequência. E não pode ter muita criatividade, porque senão será impossível, em todos os níveis, recordar o que colocou. Acho uma afronta quando ainda tem aquele espaço para colocar uma frase que, teoricamente, seria uma dica para você magicamente lembrar daquele código intrincado que acabou de inventar. É preciso ainda se proteger. Colocar vários níveis de segurança para nenhum abusado te hackear. A gente não consegue entrar, mas eles fuçam e pegam tudo na maior facilidade. Me sinto uma analfabeta, que não consegue desvendar esse universo codificado. Quando surgiram os e-mails, lá no século passado (que parece vida passada), era difícil conseguir criar uma conta que ainda não existisse nos provedores mais usuais. Imagino quem tem de fazer isso agora, milhões de emails gerados depois. Tenho um nome para lá de comum. Então, imagine a saga de conseguir conceber um email fernandalopes@qualquercoisa. Tinha sempre que colocar um número, uma abreviação, uma alcunha. Ainda é assim, só que um tanto pior. Nessas horas, quem tem nomes singulares se dá bem. Minha prima Djamai é única. Ela consegue ter e-mails e contas em facebooks, instagrans, twitters (me recuso a chamar de X) e todo tipo de registro. Lá, quando ela foi a primeira bebê a nascer em Santos no dia 1o de janeiro de 1978, a mãe dela, minha madrinha Regina, estava inspirada e não podia imaginar a utilidade cibernética que sua criatividade teria. Outro dia, tendo que digitar naquele controle da TV meu email e minha senha para assistir a uma série, me vi querendo ter o nome de Ana, Ema, Ida. Algo bem curtinho que poupasse o trabalho de ficar buscando as letrinhas naquele nada ordenado teclado das plataformas digitais. Sou do tempo da datilografia. Tinha que teclar com todos os dedos, nada de catar milho. Tinha curso e até prova. Minha avó foi taquígrafa. Uma profissão que nem sei se está extinta. Vou pesquisar. Nunca vi, mas ela contava que era muito rápida anotando naqueles símbolos fonéticos. Como jornalista, também sempre fui ágil, tanto escrevendo como digitando. Hoje, ninguém mais escreve a mão. Tudo é gravado, filmado e tem Inteligência Artificial até pra fazer textos. Eles ficam monótonos e chatos, mas estão lá. Pensando bem, vou procurar uma Inteligência Artificial que crie e guarde todas as minhas senhas. Já deve existir. Apesar que, pensando bem, é bem capaz de eu perder a senha de acesso a tal IA. E também se um dia as máquinas se rebelarem como nos melhores filmes de ficção, não será um bom negócio... é melhor manter o mais importante anotado em um papel.