[[legacy_image_356209]] Passei a acordar 20 minutos mais cedo na última semana. O objetivo não era chegar antes no trabalho, ou ter mais tempo para escolher a camisa, nem mesmo para tomar café da manhã com mais tranquilidade. Minha intenção era identificar de onde vinha o som de uma música eletrônica chatíssima que me acordava todos os dias 5 minutos antes do despertador do celular. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Eu tinha algumas desconfianças. Há uma escola infantil na mesma quadra, um templo religioso, e uma obra em um prédio ao lado. Imaginava que o ruído viesse de um desses espaços. Ao acordar segunda-feira, joguei uma água no rosto e fui até a janela. Por ser uma textura sonora, teria que redobrar a atenção, já que era provável que não houvesse uma movimentação específica para identificar a origem do som. Fiquei plantado e atento durante 15 minutos, mas como meu limite de horário se afunilava, voltei à rotina do dia. A música tocou, mas eu já não estava alerta na janela. Na terça-feira, foi a mesma coisa: esperei por um tempo, mas tive que retornar aos afazeres e não consegui verificar a fonte sonora. Na quarta-feira, fiquei entretido com a algazarra de três bem-te-vis que faziam um voo rasante por entre os prédios, e acabei não prestando atenção à origem da música. Na quinta, me distraí enquanto assistia, por volta de 5h40, o escuro alaranjado do céu clareando suavemente. Um degradê pontual que se dilui até o dia iluminar por inteiro o cenário da cidade. Às 6h, o céu já estava com uma iluminação quase uniforme para o dia que começava. Antecipei o despertador a semana inteira e, ainda assim, não consegui identificar de onde vinha a música. Mas em contrapartida, adicionei à rotina o hábito de não fazer nada por alguns minutos. Nesse tempo em que passei tentando encontrar a origem do barulho, acabei por incorporar uma experiência de desintoxicação mental. Nunca meditei nem conheço qualquer técnica de concentração, mas, na prática, o processo de assistir aos pássaros voando e fazendo sons pela manhã, ou observar a mudança de cor que o céu proporciona, em decorrência do contraste entre o fim da madrugada e o início da manhã, me trouxeram a possibilidade de olhar menos a tela do celular, notícias, redes sociais, e-mails ou qualquer tipo de informação. Esse pequeno período de tempo tem duração de apenas alguns minutos, mas parece que vale por um dia inteiro. A observação neutra e desinteressada, descolada de qualquer finalidade específica, traz alguns minutos de equilíbrio, em meio ao cotidiano acelerado da cidade. Com essa mesma percepção estoica, identifiquei o olhar do personagem Hirayama, do filme Dias Perfeitos (2023), de Wim Wenders, que chegou ao streaming nas últimas semanas. Todos os dias, o protagonista elabora com extremo afinco seus afazeres aparentemente banais, enquanto sai rumo ao trabalho. Regar plantas, olhar o céu, aparar o bigode, escovar os dentes e observar o movimento da cidade de dentro do seu carro, enquanto faz o trajeto. Estas são algumas das ações mais simples e desinteressantes do dia de qualquer pessoa. Mas, no filme, esta é uma parte imprescindível da narrativa. O personagem se desprende de qualquer norma ou padrão imposto pela estética de aceleração das redes sociais, no mundo contemporâneo – nada lhe interessa no contexto da tela. O único universo que importa é aquele em que vive, no caso, o mundo real. Sua atividade profissional consiste na limpeza de banheiros públicos em Tóquio, atividade que exerce com extrema precisão e cuidado. Aos poucos, o diretor vai revelando nuances do personagem, alusões ao passado e suas relações interpessoais. O que nos interessa neste filme é a perspectiva de uma experiência contemplativa da vida. Trata-se de um protagonista analógico que demonstra a irrelevância da idealização de felicidade propagada pela sociabilidade digital em detrimento de experiências concretas. A presença da fotografia analógica, a bicicleta, livros físicos e fitas cassetes, ilustra essa percepção. Um detalhe: o uso do relógio de pulso somente aos finais de semana, pois, para ele, “agora é agora”. Wim Wenders faz uma comparação crítica sublime entre a vida real e a efemeridade do ambiente digital. Recomendo ao leitor essa reflexão cinematográfica. O filme funciona como terapia, uma janela que nos convida a uma desaceleração com relação aos estímulos virtuais que transformam pessoas e cotidiano em produtos de consumo. Sobre o ruído sonoro que escuto todas as manhãs, reconheço que ainda não faço a menor ideia de onde venha, mas, de certa forma, observar a breve transformação da iluminação solar e, eventualmente, bem-te-vis dando cambalhotas ao revoar me pareceu uma forma bem interessante de começar o dia. Boa semana!